sábado, 15 de junho de 2013
eu preciso aprender a ser só
eu preciso aprender a só ser
o não ser que é.
eu preciso aprender a só ser
o não ser que é.
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segunda-feira, 10 de junho de 2013
“eu me abismo, eu sucumbo...”
“bismar-se. onda de aniquilamento que
sobrevém ao sujeito amoroso por desespero ou plenitude.
Werther
1. seja mágoa, seja felicidade, toma-se às
vezes o desejo de me abismar.
a manhã (no campo) está cinzenta e fresca.
sofro (de não sei que incidente). uma ideia de suicídio se apresenta, pura de
todo ressentimento (nenhuma chantagem) contra ninguém); é uma ideia insípida;
não rompe nada (não “quebra” nada, combina com a cor (com o silêncio, com o
abandono) desta manhã.
um outro dia, debaixo de chuva, esperamos o
barco na beira de um lago; de felicidade, desta vez, a mesma onda de
aniquilamento me vem. Assim, às vezes, a desgraça ou a alegria assaltam-se, sem
que sobrevenha nenhum tumulto: nenhum pathos
mais: estou dissolvido, não despedaçado: caio, esvazio-me, derreto. esse
pensamento; levemente tocado, tentado, tateado (como se tateia a água com o pé)
pode voltar. nada tem de solene.
isso é muito exatamente a suavidade.
Tristão, Baudelaire, Rusbrock
2. a onda do abismo pode vir de uma mágoa,
mas também de uma fusão: morremos juntos de nos amar; morte aberta, por
diluição no éter, morte enclausurada da tumba comum.
o abismo é um momento de hipnose. Uma
sugestão age, que me ordena desmaiar sem me matar. daí, talvez, a suavidade do
abismo: não tenho nenhuma responsabilidade nisso, o ato (de morrer) não cabe a
mim: confio-me, transfiro-me (a quem? a deus, à natureza, a tudo, menos ao
outro).
3. quando assim me acontece de abismar-me, é
porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte. a imagem
do outro – à qual eu me colocava, da qual vivia – já ao existe; ora é uma
catástrofe (fútil) que parece afastá-la para sempre, ora é uma felicidade
excessiva que me faz alcançá-la; de qualquer modo, separando ou dissolvido, não
sou recolhido em parte alguma; na frente, nem eu, nem você, nem morte, mais
nada a quem falar.
(estranhamente, é no ato extremo do
imaginário amoroso – aniquilar-se por ter sido expulso da imagem ou nela ter-se
confundido – que se consuma uma queda deste imaginário: no tempo breve de um
vacilar, perco minha estrutura de amante: é um luto factício, sem trabalho:
algo como uma impronúncia.)
4. amante da morte? é dizer demais de uma
metade: half in Love with easeful death (keats: a morte livre do morrer. Tenho
então este fantasma: uma hemorragia suave que não correria de nenhum ponto de
meu corpo, uma consumação quase
imediata, calcada para que eu tenha tempo de dessofrer sem ter ainda
desaparecido. instalo-me fugidiamente num pensamento falseado da morte
(falseado como uma chave empenhada): penso a morte ao lado; penso-a segundo uma lógica impensada, derivo para fora do
binário fatal que liga a morte e a vida opondo-as.
Sartre
5. o abismo não passaria de um aniquilamento
oportuno? não me seria difícil nele ler não um repouso, mas uma emoção. mascaro
meu luto sob uma fuga; diluo-me, desvaneço-me para escapar a esta compacidade,
a esta saturação que faz de mim um sujeito responsável: saio: é o êxtase.
rua do cherch-midi, após uma noite difícil,
X... explicava-me muito bem, com voz precisa, com frases bem formadas,
distantes de todo indizível, que desejava às vezes esvaecer-se; lamentava
jamais poder desaparecer voluntariamente, quando tivesse vontade.
suas palavras diziam que pretendia então
sucumbir à sua fraqueza, não resistir Às mágoas feitas pelo mundo;mas, ao mesmo
tempo, ele substituía esta força alquebrada por uma outra força, uma outra
afirmação: assumo contra tudo e todos uma
recusa de coragem, e portanto uma denegação de moral: é o que dizia a voz de
X...”
trecho extraído do livro “fragmentos de um discurso
amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 3-6.
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domingo, 9 de junho de 2013
“Quem já conheceu o estado de
graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça
especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.
O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se
viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além
da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que
só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem
não advinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê,
porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se
transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando,
numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes
inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é
imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das
pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e
exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é
impalpável.
Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça
dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo advinhá-lo. É
apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna
totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.
As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por
isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como
numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem
o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o
mundo.
Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe
– não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo
como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar
um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem
quando quer e espontaneamente.
Não sei por quê, mas acho que os animais entram com mais
freqüência na graça de existir do que os humanos. Só que eles não sabem, e os
humanos percebem. Os humanos têm obstáculos que não dificultam a vida dos
animais, como raciocínio, lógica, compreensão. Enquanto que os animais têm a
esplendidez daquilo que é direto e se dirige direto.
Deus sabe o que faz: acho que está certo o estado de graça não nos
ser dado frequentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para o
outro lado da vida, que também é real, mas ninguém nos entenderia jamais.
Perderíamos a linguagem em comum.
Também é bom que não venha tantas vezes quanto eu queria. Porque
eu poderia me habituar à felicidade – esqueci de dizer que em estado de graça
se é muito feliz. Habituar-se à felicidade seria um perigo. Ficaríamos mais
egoístas, porque as pessoas felizes o são, menos sensíveis à dor humana, não
sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisam – tudo por termos
na graça a compensação e o resumo da vida”.
Lispector, Clarice, “Estado de Graça” in A
descoberta do mundo, Ed. Rocco, 1999.
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sábado, 8 de junho de 2013
meu desespero é me perder dentro de mim
me aprofundar tão intimamente dentro
mais dentro que útero, mais abismo que terra
[que eu não consiga me livrar de mim]
que eu não possa voltar para dizer
apenas para mim mesma sobre o meu sentir
com todas as portas abertas
todas a feridas absortas...
isso de ser atravessada e consumida
por tudo que sou, é de mais para meus sentidos
ontem desagüei um rio mar
tinha textura água dentro de mim
peso de água, gosto de densidade
tudo que minha pele assentava
por um instante tudo era mais profundo
e ao mesmo tempo que era
passava como vento invisível, leve...
era um choro das profundezas
era uma gargalhada desesperadora,
era medo de não voltar mais
era tudo e era nada
mais nada que tudo e passou
hoje eu delicio o vivido.
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"quando meu dedo inadvertidamente..."
CONTATOS. A figura se refere a todo discurso interior suscitado por um contato furtivo com o corpo (e mais precisamente a pele) do ser desejado.
Werther
1. Inadvertidamente, o dedo de Werther toda o dedo de Carlota, seus pés, sob a mesa, se encontram. Werther poderia abstrair-se do sentido desses acasos; poderia se concentrar corporalmente nessas débeis zonas de contato e gozar daquela fração de dedo ou de pé inerte de uma maneira fetichista, sem se preocupar com a resposta (como Deus - é esta sua etimologia - Fetiche não responde). Mas precisamente: Werther não é perverso, é amante: cria sentido, sempre em toda parte, de um nada, e é o sentido que o faz estremecer: ele está no braseiro do sentido. Todo contato, para o amante, coloca a questão da resposta: pede-se à pele que responda.
(Pressões de mãos - imenso repertório romanesco -, gesto tênue no interior da palma, joelho que não se afasta, braço estendido, como se nada fosse, ao longo de um encosto de canapé e sobre o qual a cabeça do outro vem pouco a pouco repousar, tal é a região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, não dos sentidos, mas do sentido.)
Proust
2. Charlus segura o queixo do narrador e deixa deslizar os dedos magnetizados até suas orelhas, "como os dedos de um cabeleireiro". Este gesto insignificante, que eu começo, é continuado por uma outra parte de mim; sem que nada, fisicamente, o interrompa, ele bifurca, passa da simples função ao sentido deslumbrante, o da demanda de amor. O sentido (o destino) eletriza minhão mão; vou dilacerar o corpo opaco do outro, obrigá-lo (quer ele responda, quer se retire ou se abandone) a entrar no jogo do sentido: vou fazê-lo falar. No campo amoroso, não há acting-out: nenhuma pulsão, talvez mesmo nenhum prazer, apenas signos, uma atividade desesperada de palavra; instaurar, a cada ocasião furtiva, o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta.
trecho extraído do Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 85-86.
Werther
1. Inadvertidamente, o dedo de Werther toda o dedo de Carlota, seus pés, sob a mesa, se encontram. Werther poderia abstrair-se do sentido desses acasos; poderia se concentrar corporalmente nessas débeis zonas de contato e gozar daquela fração de dedo ou de pé inerte de uma maneira fetichista, sem se preocupar com a resposta (como Deus - é esta sua etimologia - Fetiche não responde). Mas precisamente: Werther não é perverso, é amante: cria sentido, sempre em toda parte, de um nada, e é o sentido que o faz estremecer: ele está no braseiro do sentido. Todo contato, para o amante, coloca a questão da resposta: pede-se à pele que responda.
(Pressões de mãos - imenso repertório romanesco -, gesto tênue no interior da palma, joelho que não se afasta, braço estendido, como se nada fosse, ao longo de um encosto de canapé e sobre o qual a cabeça do outro vem pouco a pouco repousar, tal é a região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, não dos sentidos, mas do sentido.)
Proust
2. Charlus segura o queixo do narrador e deixa deslizar os dedos magnetizados até suas orelhas, "como os dedos de um cabeleireiro". Este gesto insignificante, que eu começo, é continuado por uma outra parte de mim; sem que nada, fisicamente, o interrompa, ele bifurca, passa da simples função ao sentido deslumbrante, o da demanda de amor. O sentido (o destino) eletriza minhão mão; vou dilacerar o corpo opaco do outro, obrigá-lo (quer ele responda, quer se retire ou se abandone) a entrar no jogo do sentido: vou fazê-lo falar. No campo amoroso, não há acting-out: nenhuma pulsão, talvez mesmo nenhum prazer, apenas signos, uma atividade desesperada de palavra; instaurar, a cada ocasião furtiva, o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta.
trecho extraído do Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 85-86.
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sexta-feira, 7 de junho de 2013
meu coração aqueceu
acho que é amor
ou início dele.
acho que é amor
ou início dele.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
o fio que tece muitas vidas.
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quero agradecer ao acaso, o espaço e ao dedinho da minha irmã
por me fazer encontrar oito reais no caminho. quero dizer meu muito obrigada a
alma generosa que perdeu oito reais no caminho. graças a essa rica fortuna comprei
um rico sorvete na sorbê para minha irmã. sem esse valioso achado seria impossível
comprar um soverte de duas miseras bolas por $12,00 na querida sorbê. repito para
ficar bem anunciado, duas ínfimas bolas pequenas por $12,00, e a porra do
sorvete de café era um não-sei-o-que... no meu tempo eu comprava um bom sorvete
de casquinha por apenas $1,50. mas isso era na satélite, outro esquema, outra
vida.
sábado, 1 de junho de 2013
"desde a idade de seis anos, eu tinha a mania de desenhar
a forma dos objetos. por volta dos cinquenta, havia
publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que
produzi antes dos sessenta não deve ser levado em conta.
aos setenta e três, compreendi mais ou menos a estrutura
da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os
pássaros, os peixes e os insetos. em consequência, aos
oitenta, terei feito ainda mais progressos; aos noventa,
penetrarei o mistério das coisas; aos cem, terei
decididamente chegado a um grau de maravilha, e
quando eu tiver cento e dez anos, para mim, seja um
ponto, seja uma linha, tudo será vivo."
KATSUSHIKA HOKUSAI (1760? - 1849), extraído do livro "estar sendo. ter siso" da HILDA HILST
a forma dos objetos. por volta dos cinquenta, havia
publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que
produzi antes dos sessenta não deve ser levado em conta.
aos setenta e três, compreendi mais ou menos a estrutura
da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os
pássaros, os peixes e os insetos. em consequência, aos
oitenta, terei feito ainda mais progressos; aos noventa,
penetrarei o mistério das coisas; aos cem, terei
decididamente chegado a um grau de maravilha, e
quando eu tiver cento e dez anos, para mim, seja um
ponto, seja uma linha, tudo será vivo."
KATSUSHIKA HOKUSAI (1760? - 1849), extraído do livro "estar sendo. ter siso" da HILDA HILST
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