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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Quarta-feira, Maio 22, 2002

Estou tão cansada. Meu corpo dói por causa da tensão. Parece que estou encolhendo. Acho que estou, mesmo. Até minhas frases ficaram mais curtas.

Acho que não acredito em mais nada. Acho que vou para casa. Empacotar minhas coisas, meus gatos, meus discos, meus livros e ir para casa. Não me arrependo de ter saído de lá, precisava enfiar a cara na lama. Mas agora preciso limpar toda a sujeira. Estou suja, imunda. Eu agüento, eu agüento, sempre agüento tudo, mas cansei. Nem meu corpo suporta mais, coitado. Preciso hibernar, dormir meses e meses e só acordar quando o sol voltar. Estou fraca e cansada. Lindo isso de caber nas calças, mas elas estão começando a cair. Não consigo comer. Não posso beber. Cansada, mole, fraquinha, tão não-eu. Cansada de ficar esperando algo que me alivie, que me deixe leve. Poucas coisas têm me feito sorrir, além de mim. Engraçado, fico feliz com o fruto da dor. É bom saber que eu mesma sou um alívio para os outros, mas ei, também preciso de um pouco de açúcar na minha tigela, como insistentemente a Nina pede nos meus ouvidos. Paciência, Nina. Muita paciência. É isso que falta. O tempo me mata.

Não sinto mais raiva. Não tenho forças para sentir raiva. Isso deve ser bom. Gostaria de sentir bastante raiva agora, acho que seria uma benção dar uns socos na parede e soluçar bem alto, arranhar meus braços e morder meu lábio com força. Mas só consigo guardar tudo dentro da garganta. Fica ali. Grudado. Estático.

E o filho da puta não pára.
Fumo, fumo, fumo. Fumei demais hoje. Ontem também.
Me deram um cobertor. Não volto para casa hoje. Fico aqui, no sofá.
Cansei. Vou embora desta cidade. Preciso de um pouco de paz.
Amanhã eu mudo de idéia. Amanhã passa. E o que passa não importa. Só as palavras importam.
Amanhã passa. E eu fico. Eu tenho que ficar.

INANIA VERBA

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo o que te deslumbrava...

O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve,
E a Palavra pesada abafa a idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!

Obrigada, Senhor Bilac. Era isso que eu estava tentando dizer.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Das coisas esquecidas atrás da estante

O começo nunca teve fim.

Busco o sofrimento como o moribundo no deserto à procura de água, rastejando, cega e surda, sem sentir nada além do cimento na barriga.

Não, eu não odeio.
Eu não amo.
Eu não esqueço.
Eu não quero.

O começo nunca teve um fim e para sempre vai ser um começo, como os contos de fadas que acabam no meio; e foram infelizes para sempre. Sem fim, sem fim. O príncipe se enforcando na ponte do castelo, tirando a corda do pescoço ao fim da cena, porque é tudo uma grande farsa, e ele não é um príncipe, apenas um menino bobo.

E todo o dia seguinte é lindo e quente e ensolarado e me atordoa porque é claro demais e eu vejo todas essas feridas e lambo todas essas feridas e elas nunca cicatrizam, toda vez que o dia chega elas estão lá, no mesmo lugar, marcas de ferro e fogo ao lado do coração burro todo sujo de tinta. Então o tempo fecha e chove, chove, granizo castigando o mundo, o céu despencando, a lama correndo aos meus pés e me afundando, sujando tudo, o olho borrado, tudo embaçado, tudo errado e fora do lugar, o vento dançando nas cortinas, jogando umas gotinhas geladas no meu rosto, perguntando porque eu não chorei. Olha, eu tentei, o sentimento estava lá, engasgado na pontinha dos meus cílios, uma lua crescendo na minha garganta, eu entre o sofrimento que me daria o que eu quero e a felicidade que me dá o que eu acho que não posso suportar porque é bom demais, porque tudo que é bom está errado, o inferno é que está certo, cutucando minhas costas com um tridente e me empurrando para frente.

O dia tem luz demais, prefiro a noite, onde meus olhos ficam muito abertos e as coisas fazem sentido. De noite é tudo como eu quero. Não tem dia no inferno. Não tem dia, não tem flor, não tem nada bonito. O inferno, querido, é meu céu. O dia não faz sentido. Sofrer faz sentido, dê cá meu chicote, já que você não tem coragem de bater.

Sem fim, sem fim. Tudo que eu tenho é um ponto final.