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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

pelo direito de ser monstro


Era uma roda, eu de frente pra ela. Ela de frente pra mim. Na verdade só existia eu e ela. Meu olhar já não tão meu. Quando vi, eu estava apaixonada por ela. E nunca tinha pensado sobre isso, e por um olhar profundo me entreguei pela primeira vez.
...
Esses dias eu lembrei que o primeiro beijo que eu dei foi de baixo de uma árvore. Eu e ela que não mais me recordo, o nome, a data, fizemos uma casa de pano debaixo dessa árvore, era um dia de ensaio de chuva. Estava frio, mas me recordo pela sensação e memória do corpo que boca dela era quente. Meu deus como eu pude ter esquecido isso.
...
Eu fui a São Paulo visitar um amor e comprar meias. Passeando pela avenida Paulista, ou Augusta. Minha memória me escapa a avenida, mas me lembro de te visto uma mulher com mini short e um tope, ela dançava sua sensualidade pura nas ruas da cidade. Foi o olhar mais convidativo e sensual que uma mulher me lançou.
...

Eu sempre me achei um corpo masculino. Olha esses braços... esse tronco é muito masculino. É por isso que na infância as crianças me chamavam de Maria, Maria Machão! Eu tinha um ódio disso. Eu sentia que tinha algo errado com aquelas crianças. Eu não entendia e chorava, comecei a bater em todo mundo que me caçoava.  Olha só que brutalidade que truculência que eles nos fizeram. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

post quatrocentos de dezembro de dois mil e doze
vinte quatro é metade de quarenta e oito do futuro
trinta e dois, e já é nove de janeiro de dois mil e treze
ai, os vinte e quatro se aproximam rapidamente 
ai, é um passo para os vinte cinco 
que é metade de cinquenta 
que é metade de uma vida futura. 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Voa, voa, voa, voa


Não não não, sim sim sim sim, mas porém contudo todavia no entanto outrossim.



Retificando a proeminência:
A Lua estava cheia.
E quer saber?
Eu também.
E tudo e nada tem seu fim
Foi preciso ser assim
Tudo tem que ter um fim
Em doses homeopáticas
Ou em doses letais
E que saber?
O efeito complexou
Ainda mais o complexo
O invisível, o não-dito, o não-lugar
C’est La vie
Revelação, transmutação, nudez
Nudez é toque tátil de si
Sem compromisso, sem espera
Bastou no fim me cumprir
Renasci em mim
 “Toda eixosa
Cheia de L2”
Naquela noite
Sonhei três mil vezes
Dentro de muitos sonhos
Desejos
E quer saber?
A Lua naquela noite
Mostrou-se ínfima
E muito pouco generosa
Já dizia Ranieri
Inspirado em Leminski:
“Alguém tem que fazer alguma
Coisa com a Lua
Aquela coisa imensa, redonda
Aquela coisa branca enorme
Donde vem todo o frio
Que faz a madeira das casas estalarem,
Malassobradas
Então os cachorros latem mais”
Retificando a evidência:
Eu sou cachorra
Mas não sou burra
E apesar da obviedade
Repetitiva e monótona
Tudo é muito aparente
C’est La vie





quarta-feira, 4 de julho de 2012

Transcrito, Pós-escrito e Edificante.



Ao fim da história a filha caçula pergunta.
- A vida não é uma decepção?
Sua cunhada responde com um sorriso franco e generoso. 
- Sim, ela é. 
Acho que é uma resposta que Santiago compreenderia. Enquanto viveu ele se ocupou com seus nobres e suas castanholas. Foi salvo por coisas tão gratuitas quanto à dança no parque de que gostava tanto. Com elas quem sabe pode suportar a melancolia de quem suspeita que as coisas não fazem mesmo muito sentido. 

sábado, 19 de maio de 2012

um passarinho voou de dentro para fora. tempo tempo tempo.


E ao me eleger senti os dedos deslizarem sobre a pele lisa, arrepiei-me.
Respirei, respirei, respirei o tempo instante.
Subverti-me nua em toques e abraços.
Despi-me no meu tempo, um tempo agora de duração.
No tempo lento, suave, inconsciente, brutalmente visível.

É o tempo?
Ele anda passando a mão em mim.

... e tempo para voltar para casa.


Eu,

Essa carta compõe uma serie de (mu)dança, um presente presente  que se defende ágil e tranqüilo a mim mesma. Sim, esta carta é para mim. Escolhi me dar o abraço que nunca me dei. Escolhi me ver além do muro, além do que posso ver e entender. Resolvi nesses meus vinte e poucos anos fudido me sentir inteira... Os seios, a barriga, o cabelo, a buceta, a boca, o corpo inteiro... Inteiramente me terei em abraços... Liberdade. Serei sim os abraços que sempre remediei em me dar.  Serei o sorriso finalmente largo que escondi atrás dos dentes rangentes. Serei a mulher que nunca me vi ser... Vestirei-me nua, toda nua a mim mesma. Só assim poderei me arriscar no mundo, quem sabe no outro. E só assim “um dia virá em mim à capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave. Um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente visando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer, que serei incapaz de falar. Sobretudo um dia virá, em que todo o meu movimento será criação, nascimento. Eu romperei  todos os não que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo que eu for será sempre onde haja uma mulher com o meu princípio. Erguerei dentro de mim o que sou. Um dia a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência. Eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade e de humanidade, não o passado correndo o futuro. O que eu disser soará fatal e inteiro. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante. Sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende. Me ultrapassarei em ondas. Ah, Deus. E tudo que cabe e venha sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos. Porque basta me cumprir. E então, nada impedirá meu caminho até a morte sem medo de qualquer luta ou descaso, me levantarei, forte e bela, como um cavalo novo.” E então, nada me impedirá. 


Um tempo agora de lembrança ou quanto 
tempo dura um abraço, Alamedas Céu na Boca.
Uma  livre  apropriação do livro Perto do
coração selvagem de Clarice Lispector.
Brasília, maio de 2012 ou um tempo agora de (mu)dança.