domingo, 30 de junho de 2013

não queria colocar um título, mas fui obrigada a colocar por conta de um aviso de não deixar espaços em branco.

quero te-ver
não quero pré-texto
mas se for pra cortar o cabelo
os nossos
corto com pretexto.

urdimento

eu não sei se eu me lembro de algo que aconteceu comigo
ou se eu me lembro de algo que eu inventei

eu nasci num quarto sem reboco
com uma porta de lençol grudada com dois pregos
eu nasci de parto normal pelas mãos de uma parteira
doze anos depois eu voltei pro lugar
de onde eu havia nascido
onde eu nasci só tem dois caminhos
um que vai para frente
e outro que vai para trás.

domingo, 23 de junho de 2013

meu lado aquariano é masculino

de repente a gente brilha, realce.

"Tá todo mundo improvisando. Era isso! Acho que a gente tava dançando na rua"

    cheguei atrasada pra ver vocês (seria a primeira vez que eu
    veria vocês - de tão tão perto) cheguei pertinho
    mas não vi nada, nada mesmo
    e não era só a escuridão da noite, era minha visão
    que me impedia de ver, então usei o corpo por outras portas
    abri os sentidos do tempo, o ritmo era minha visão
    a primeira coisa que ouvi e senti na pele foi seu sorriso
    que saudade de sentir-ouvir seu sorriso
    me tomei de muito amor
    no finalzinho consegui entrar
    fiquei pertinho
    olhava para cima e lá no céu a lua dançava
    enquanto eu não sabia de onde via uma força maior que me fazia
    dançar bem pequeno, era meu grande no pequeno
    queria ter ficado até o final pra sentir seu abraço
    mas tive que ir
    sai de lá muito aberta, muito que não sei explicar
    vou dormir porque não to aguentando ficar acordada
    amo você
    seu movimento.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

por um lindésimo de segundo

tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

p.leminski, toda poesia. 2013, pág. 182.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

"por um lindésimo de segundo"


eu não sou muito de sonhar
ou melhor dizendo, pois aprendi assim com o tempo, não sou
muito de lembrar de sonhos, aqueles primeiros do inicio da noite
me lembro dos últimos, aqueles de sustos despertos pela necessidade de acordar
o celular desperta e preciso acordar pra vida
mas esses dias de muita flor na pele
lembrei de um em especial, com muito detalhes, muitas camadas
que não sei precisar o significado, mas acredito que o corpo saiba
porque ele é dotado de inteligência que as palavras costumam não dar conta
mas era assim o sonho, era assim:
uma banheira grande, pois dentro havia três mulheres
duas do signo de terra e uma com ascendência na terra
parecia um banheiro, mas poderia ser qualquer lugar
eu estava nesse sonho, estava de calcinha
era apenas uma calcinha em mim, as outras duas mulheres
me lembro do corpo e da sensação dos seus rostos
era com amor que elas me fitavam
até eu mergulhar naquela água que nos cobria perto da cintura
e que aos poucos iria cobrir meus seios
olhei fundo nos olhos das deusas, respirei sonolentamente
e mergulhei para dentro, lugar nenhum
quando abri meus olhos, me vendo como observadora no
meu próprio sonho, me vi num mar azul escuro de estrelas
era um mar azul de estrelas que eu havia mergulhado
me lembro de me sentir tocada pelo mar de estrelas
de repente eu estava nadandovoando no abismo
eu mergulhei e me perdi no que não sei explicar
e quando a gente não sabe explicar
pode ser muitas coisas, entres elas o amor, o
próprio sonho, a dança, a vida, os sentires
e muitos outros improvisos que temperam a pele

e que afinam a vida num único fio que é um rio. 

domingo, 16 de junho de 2013

na imensidão do nada perdi minha visão tecnológica, agora me resta minha verdadeira visão embasada, encurtecida de espaço. essa visão que não ver por detalhes, mas que ver por sensação, memória e cheiro.
a vida gosta de mandar cartas em horinhas de descuidos, de esquecimentos, de não sei o que será agora e aprecio o tédio. ela, a vida, me fez semana passada cair de amor, amor que já nasce de saudade, que já nasce para morrer de saudade. amor que nasce para nunca existir e morrer de tempo em mim.
o tempo é meu grande amor, ele me presenteia com a experiência e com a calmaria de que tudo não faz sentido mesmo. e tudo bem, a vida existe, ela dança e causa saudade, e pior de histórias que nunca vivi.
tenho sentido com mais peso a minha farsa, se isso é e não é, eu sinto que sou farsante, sinto que ainda não sei ser. sinto que só quando eu me libertar de mim mesma ou poderei me libertar dos outros. sinto que a qualquer momento eu vou explodir e finalmente ser.  

eu queria ser ser menos pesarosa,menos triste, mais riso do que seriedade, mais qualquer coisa sem importância do que qualquer outra coisa de sofrimento, de julgamento contra mim mesma. eu queria ser outra coisa, nesse momento eu quero isso. amanhã posso não querer, amanhã é outro dia. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

um amor da maior importância


“eu me abismo, eu sucumbo...”

“bismar-se. onda de aniquilamento que sobrevém ao sujeito amoroso por desespero ou plenitude.

Werther

1. seja mágoa, seja felicidade, toma-se às vezes o desejo de me abismar.
a manhã (no campo) está cinzenta e fresca. sofro (de não sei que incidente). uma ideia de suicídio se apresenta, pura de todo ressentimento (nenhuma chantagem) contra ninguém); é uma ideia insípida; não rompe nada (não “quebra” nada, combina com a cor (com o silêncio, com o abandono) desta manhã.

um outro dia, debaixo de chuva, esperamos o barco na beira de um lago; de felicidade, desta vez, a mesma onda de aniquilamento me vem. Assim, às vezes, a desgraça ou a alegria assaltam-se, sem que sobrevenha nenhum tumulto: nenhum pathos mais: estou dissolvido, não despedaçado: caio, esvazio-me, derreto. esse pensamento; levemente tocado, tentado, tateado (como se tateia a água com o pé) pode voltar. nada tem de solene.
isso é muito exatamente a suavidade.

Tristão, Baudelaire, Rusbrock

2. a onda do abismo pode vir de uma mágoa, mas também de uma fusão: morremos juntos de nos amar; morte aberta, por diluição no éter, morte enclausurada da tumba comum.
o abismo é um momento de hipnose. Uma sugestão age, que me ordena desmaiar sem me matar. daí, talvez, a suavidade do abismo: não tenho nenhuma responsabilidade nisso, o ato (de morrer) não cabe a mim: confio-me, transfiro-me (a quem? a deus, à natureza, a tudo, menos ao outro).

3. quando assim me acontece de abismar-me, é porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte. a imagem do outro – à qual eu me colocava, da qual vivia – já ao existe; ora é uma catástrofe (fútil) que parece afastá-la para sempre, ora é uma felicidade excessiva que me faz alcançá-la; de qualquer modo, separando ou dissolvido, não sou recolhido em parte alguma; na frente, nem eu, nem você, nem morte, mais nada a quem falar.
(estranhamente, é no ato extremo do imaginário amoroso – aniquilar-se por ter sido expulso da imagem ou nela ter-se confundido – que se consuma uma queda deste imaginário: no tempo breve de um vacilar, perco minha estrutura de amante: é um luto factício, sem trabalho: algo como uma impronúncia.)
4. amante da morte? é dizer demais de uma metade: half in Love with easeful death (keats: a morte livre do morrer. Tenho então este fantasma: uma hemorragia suave que não correria de nenhum ponto de meu corpo, uma consumação quase imediata, calcada para que eu tenha tempo de dessofrer sem ter ainda desaparecido. instalo-me fugidiamente num pensamento falseado da morte (falseado como uma chave empenhada): penso a morte ao lado; penso-a segundo uma lógica impensada, derivo para fora do binário fatal que liga a morte e a vida opondo-as.

Sartre

5. o abismo não passaria de um aniquilamento oportuno? não me seria difícil nele ler não um repouso, mas uma emoção. mascaro meu luto sob uma fuga; diluo-me, desvaneço-me para escapar a esta compacidade, a esta saturação que faz de mim um sujeito responsável: saio: é o êxtase.

rua do cherch-midi, após uma noite difícil, X... explicava-me muito bem, com voz precisa, com frases bem formadas, distantes de todo indizível, que desejava às vezes esvaecer-se; lamentava jamais poder desaparecer voluntariamente, quando tivesse vontade.
suas palavras diziam que pretendia então sucumbir à sua fraqueza, não resistir Às mágoas feitas pelo mundo;mas, ao mesmo tempo, ele substituía esta força alquebrada por uma outra força, uma outra afirmação: assumo contra tudo e todos uma recusa de coragem, e portanto uma denegação de moral: é o que dizia a voz de X...”


trecho extraído do livro “fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 3-6. 

domingo, 9 de junho de 2013

“Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não advinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.

E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.

No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é impalpável.

Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo advinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.

As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.

Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente.

Não sei por quê, mas acho que os animais entram com mais freqüência na graça de existir do que os humanos. Só que eles não sabem, e os humanos percebem. Os humanos têm obstáculos que não dificultam a vida dos animais, como raciocínio, lógica, compreensão. Enquanto que os animais têm a esplendidez daquilo que é direto e se dirige direto.

Deus sabe o que faz: acho que está certo o estado de graça não nos ser dado frequentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para o outro lado da vida, que também é real, mas ninguém nos entenderia jamais. Perderíamos a linguagem em comum.

Também é bom que não venha tantas vezes quanto eu queria. Porque eu poderia me habituar à felicidade – esqueci de dizer que em estado de graça se é muito feliz. Habituar-se à felicidade seria um perigo. Ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o são, menos sensíveis à dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisam – tudo por termos na graça a compensação e o resumo da vida”.

Lispector, Clarice, “Estado de Graça” in A descoberta do mundo, Ed. Rocco, 1999.


sábado, 8 de junho de 2013

meu desespero é me perder dentro de mim
me aprofundar tão intimamente dentro
mais dentro que útero, mais abismo que terra
[que eu não consiga me livrar de mim]
que eu não possa voltar para dizer
apenas para mim mesma sobre o meu sentir
com todas as portas abertas
todas a feridas absortas...
isso de ser atravessada e consumida
por tudo que sou, é de mais para meus sentidos
ontem desagüei um rio mar
tinha textura água dentro de mim
peso de água, gosto de densidade
tudo que minha pele assentava
por um instante tudo era mais profundo
e ao mesmo tempo que era
passava como vento invisível, leve...
era um choro das profundezas
era uma gargalhada desesperadora,
era medo de não voltar mais
era tudo e era nada
mais nada que tudo e passou

hoje eu delicio o vivido. 

"quando meu dedo inadvertidamente..."

CONTATOS. A figura se refere a todo discurso interior suscitado por um contato furtivo com o corpo (e mais precisamente a pele) do ser desejado.

Werther

1. Inadvertidamente, o dedo de Werther toda o dedo de Carlota, seus pés, sob a mesa, se encontram. Werther poderia abstrair-se do sentido desses acasos; poderia se concentrar corporalmente nessas débeis zonas de contato e gozar daquela fração de dedo ou de pé inerte de uma maneira fetichista, sem se preocupar com a resposta (como Deus - é esta sua etimologia - Fetiche não responde). Mas precisamente: Werther não é perverso, é amante: cria sentido, sempre em toda parte, de um nada, e é o sentido que o faz estremecer: ele está no braseiro do sentido. Todo contato, para o amante, coloca a questão da resposta: pede-se à pele que responda.

(Pressões de mãos - imenso repertório romanesco -, gesto tênue no interior da palma, joelho que não se afasta, braço estendido, como se nada fosse, ao longo de um encosto de canapé e sobre o qual a cabeça do outro vem pouco a pouco repousar, tal é a região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, não dos sentidos, mas do sentido.)

Proust

2. Charlus segura o queixo do narrador e deixa deslizar os dedos magnetizados até suas orelhas, "como os dedos de um cabeleireiro". Este gesto insignificante, que eu começo, é continuado por uma outra parte de mim; sem que nada, fisicamente, o interrompa, ele bifurca, passa da simples função ao sentido deslumbrante, o da demanda de amor. O sentido  (o destino) eletriza minhão mão; vou dilacerar o corpo opaco do outro, obrigá-lo (quer ele responda, quer se retire ou se abandone) a entrar no jogo do sentido: vou fazê-lo falar. No campo amoroso, não há acting-out: nenhuma pulsão, talvez mesmo nenhum prazer, apenas signos, uma atividade desesperada de palavra; instaurar, a cada ocasião furtiva, o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta.

trecho extraído do Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 85-86.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

segunda-feira, 3 de junho de 2013

o fio que tece muitas vidas.



quero agradecer ao acaso, o espaço e ao dedinho da minha irmã por me fazer encontrar oito reais no caminho. quero dizer meu muito obrigada a alma generosa que perdeu oito reais no caminho. graças a essa rica fortuna comprei um rico sorvete na sorbê para minha irmã. sem esse valioso achado seria impossível comprar um soverte de duas miseras bolas por $12,00 na querida sorbê. repito para ficar bem anunciado, duas ínfimas bolas pequenas por $12,00, e a porra do sorvete de café era um não-sei-o-que... no meu tempo eu comprava um bom sorvete de casquinha por apenas $1,50. mas isso era na satélite, outro esquema, outra vida. 

sábado, 1 de junho de 2013

ser consumido por uma música é o mesmo que ser consumida de amor.

eu to dançando com a noite.

"desde a idade de seis anos, eu tinha a mania de desenhar
a forma dos objetos. por volta dos cinquenta, havia
publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que
produzi antes dos sessenta não deve ser levado em conta.
aos setenta e três, compreendi mais ou menos a estrutura
da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os
pássaros, os peixes e os insetos. em consequência, aos
oitenta, terei feito ainda mais progressos; aos noventa,
penetrarei o mistério das coisas; aos cem, terei
decididamente chegado a um grau de maravilha, e
quando eu tiver cento e dez anos, para mim, seja um
ponto, seja uma linha, tudo será vivo."

KATSUSHIKA HOKUSAI (1760? - 1849), extraído do livro "estar sendo. ter siso" da HILDA HILST