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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

a nova



todo mudança trás uma borboleta para minha casa. ano passado ela veio por debaixo da cama e vôo pela janela abrindo um choro feliz em mim. esse ano ela entrou pela janela e tá de passagem pela minha casa. esse ano resolveu habitar o telhado do quarto. não sei por quanto tempo ela vai ficar por aqui, mas espero que goste da estádia que meu coração tem a compartilhar.

sexta-feira, 5 de abril de 2013


conhecendo minha casa e descubro novamente que gosto de ficar sozinha. gosto da companhia das paredes, do barulho da cidade e do grito das crianças da escola em frente. gosto do silêncio interrompido pelo barulho da máquina de lavar nova, pelo barulho da panela de pressão que minha mãe não queria me dar, pois achava que eu deixaria ela explodir pelo meu distraimento.  
me arrisquei na cozinha hoje, me arrisquei com a cebola e o alho que deixa cheiro de um mês nas minhas mãos. confundi a lentilha com a ervilha e fiz um arroz com as duas sementes. será que são sementes? espero que erro faça o arroz brotar.
o que me confudi é a medida, minha medida é o exagero. às vezes dar certo outras não, e tudo bem. faz parte dançar com o erro, com o desacerto. pode ser que abra um sinal e um imprevisto pontue minha solidão. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

minha casa não tem meu jeito, minha parede conta outras histórias que não são minhas. minha casa mostra um tempo passado-presente que não foram tecidos pelos os meus dedos. da parede que tomei para mim, cobri de retalhos na tentativa de abrir espaços, na tentativa de um vento inverso que me leve a habitar uma casa nova. mudar-me-ei agora de mim, onde eu habite outro eu que ainda seja eu em uma nova casa. quero poder mudar a cada instante, errar a casa instante e não dever uma perfeição que eu não sou. nunca disse que eu era perfeita, minha nova casa está uma bagunça, e insistem em me cobrar uma perfeição preciosa que não sou.   essa mudança me provou da certeza do risco, do cisco, da complexidade das relações humanas tortuosas, e da necessidade de pintar uma parede, habitar um espaço e deixá-lo ir ao mesmo tempo. deve ser por isso que deixei muita memória na casa de lá, da casa de cá vou praticar com mais rebeldia o desapego. fazer doutorada no tempo presente, enviar cartas que sempre penso em mandar. dizer mais eu te amo não com a afirmação da distância, mas com a afirmação do amor que tudo envolve e quer respirar. pretendo me dedicar e não me obrigar a ser feliz, pretendo me revisitar toda vez que o processo necessitar, pretendo praticar o amor com mais afeto e sinuosidade de uma árvore de porte grande e longas raízes. pretendo e não me obrigo a me apaixonar. me pretendo dançar mais com minhas manifestações, inquietações, com as  minhas frustrações  pretendo a sagacidade de um rio, o percurso  torto em vez de toda dureza que ainda possa existir. pretendo viver, e já me é o bastante. 



sábado, 19 de maio de 2012

... e tempo para voltar para casa.


Eu,

Essa carta compõe uma serie de (mu)dança, um presente presente  que se defende ágil e tranqüilo a mim mesma. Sim, esta carta é para mim. Escolhi me dar o abraço que nunca me dei. Escolhi me ver além do muro, além do que posso ver e entender. Resolvi nesses meus vinte e poucos anos fudido me sentir inteira... Os seios, a barriga, o cabelo, a buceta, a boca, o corpo inteiro... Inteiramente me terei em abraços... Liberdade. Serei sim os abraços que sempre remediei em me dar.  Serei o sorriso finalmente largo que escondi atrás dos dentes rangentes. Serei a mulher que nunca me vi ser... Vestirei-me nua, toda nua a mim mesma. Só assim poderei me arriscar no mundo, quem sabe no outro. E só assim “um dia virá em mim à capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave. Um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente visando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer, que serei incapaz de falar. Sobretudo um dia virá, em que todo o meu movimento será criação, nascimento. Eu romperei  todos os não que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo que eu for será sempre onde haja uma mulher com o meu princípio. Erguerei dentro de mim o que sou. Um dia a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência. Eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade e de humanidade, não o passado correndo o futuro. O que eu disser soará fatal e inteiro. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante. Sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende. Me ultrapassarei em ondas. Ah, Deus. E tudo que cabe e venha sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos. Porque basta me cumprir. E então, nada impedirá meu caminho até a morte sem medo de qualquer luta ou descaso, me levantarei, forte e bela, como um cavalo novo.” E então, nada me impedirá. 


Um tempo agora de lembrança ou quanto 
tempo dura um abraço, Alamedas Céu na Boca.
Uma  livre  apropriação do livro Perto do
coração selvagem de Clarice Lispector.
Brasília, maio de 2012 ou um tempo agora de (mu)dança. 



sábado, 10 de março de 2012

Os incansáveis


Esta foto retrata o histórico Movimento dos Incansáveis Moradores da Ceilândia que lutou pelo direito de moradia nos anos 70 e se tornou o primeiro movimento social candango a encarar a Ditadura Militar e encampar a luta de resistência pela redemocratização brasileira.



no dia do despejo trabalhei no meu cotidiano repetitivo, funcional. enquanto tudo era retirado as pressas eu estava longe, bem longe, parada, estancada, sem fazer ideia. e tudo era jogado, espalhado onde dava, onde ainda cabia as tralhas que a gente acumula durante uma vida severina. e no fim do dia na volta pra casa, enrolado com o vento e a noite que escondia umas poucas estrelas, senti um vazio ainda mais agudo, ainda mais estridente. um vazio indigente. 
eu estou cansada de bater ponto como a menina burguesa de classe média de carne osso e concreto. porque essa pobre de classe baixa, que sempre estudou em colégios públicos, passou na faculdade, nunca quis entrar para o serviço público de merda está cansada. 
e toda razão é quebrada com a dura realidade, crua e nua a sua frente... veio aquele choro estancado a anos no corpo. o olho estranhou, estremeceu com a lágrima que não veio a meses... 
vi todos os meus livros jogados... eu queria ressuscitar Jota Cristo e cobrar a promessa não cumprida... Brasília nunca meu coube...
hoje acordei com esses fleches de luz, seguindo um caminho ainda desconhecido. uma luz no fim no cu do mundo. 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

o sol tá derretendo lá fora. se eu morasse sozinha eu viveria de calcinha pelos cômodos da minha casa. eu teria uma coleção mais elaborada de calcinha com estado de humor, cores diversas, com poemas escritos nelas. já pensei. calcinhas não iam me faltar para usar e andar pela casa. 

eu não gosto de calcinhas pequenas e apertadas, prefiro as unissex, as confortáveis.  acho uma celebração quando uma calcinha se adapta ao meio biotipo corpóreo. porque nem toda calcinha vai com sua cara. tem aquelas que você usa uma vez e elas te deixa m marcas. 

olha, não é fácil encontrar uma calcinhas com as mesmas aspirações que as suas. é todo um processo de adaptação entre você e sua nova calcinha. eu por exemplo não daria certo com uma calcinha fio-dental, compatibilidade zero. nada contra, é questão de química mesmo.