"Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas - nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se sabe andar."
domingo, 6 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Um vento soprou trazendo um frio cortante, memórias gastas, saudade não vivida. Meu coração é um terreno baldio, “barco embriagado ao mar”, folha seca, estilhaços de mim. Cerquei tudo o que era afeto, amor. Sou feita de cansaço. Minhas frases são curtas, puídas, cheias de vírgulas, de pontos finais. A casa que um dia eu morei se perdeu com o tempo. Não restou um fio verde, uma carta, um beijo não roubado. Olho atrás da porta, e sinto saudade do que não fui de sonhos envelhecidos na pele, dos cortes de cabelo que não fiz, dos amores que nunca tive. Foram-se todos, inclusive, eu. Perdi-me. Desconfio que eu nunca more em casa alguma. A casa que um dia eu pertenci, não era minha. Hoje fujo pra encontrar uma casa que tenha minha pele cravada na parede, meus discos velhos na gaveta, a voz da Adriana Calcanhotto nos corredores. Meu jardim secreto.
Meu leão ferido agoniza atrás das minhas grades. Ele respira baixinho com seu enorme nariz leonino. Seus olhos grandes refletem os meus. Uma vida só nos une e nos afasta. Movimentos que se confundem dores que se multiplicam. “Cadê o leão que sempre cavalguei”. Cadê a casa que um dia eu sonhei? Cadê o café que fiz de mim nas longas tarde de leituras? Cadê eu que um dia fui um leão feroz de garras?
Sempre amei a música que me aquecia a noite sem sono. Eu sempre amei os dias de chuvas, as goteiras na minha cabeceira. Amei cada doce que comi que me engordava. Amei as cartas que fiz, sofri por não ter entregado todas elas. Amei seu olhar de Lua no terceiro ou décimo dia. Amei ainda mais as tardes perdidas (com você). Amei Deus um dia... Eu sempre amei escrever, amei cada palavra secreta, códigos, meus diários, palavras que eu inventava para meu alfabeto. Hoje nem me lembro mais desses códigos. Um dia eu amei a esperança por um pai, esqueci com o tempo a ter esperança por um. Amei com dedicação cada amor não correspondido. Sofri como uma boba com lágrimas de elefante... Odiei cada amor em vão, sementes que se findaram na terra vermelha. Amei canções que não tocaram no rádio. Amei minhas roupas puídas, tênis gastos, fitas cassetes remendas, balões de gás hélio que escapavam da minha mão. Amei, amei, amei, amei, e continuo amando para sobreviver.
Não consigo escrever o que estou sentindo nos últimos dias. Até sem bem dessas variantes, mas transpor problemas em linhas retas é um saco. Eu que tanto me exponho em linhas, faço esforço absurdo pra entender a causa da minha dor. Escrever não é um habito é uma necessidade. Escrevendo posso ser maior do que sou. Ás vezes bate um vazio e as palavras escorrem de mim como um rio feroz. É mais fácil escrever do que falar, mesmo agora, que minhas amigas palavras fogem de mim.
Assinar:
Postagens (Atom)

