AFIRMAÇÃO. contra tudo e todos, o sujeito afirma o amor como valor.
[...]
4. há duas afirmações do amor. inicialmente, quando o amante encontra o outro, há afirmação imediata (psicologicamente: deslumbramento, entusiasmo, exaltação, pouca projeção de um futuro pleno: sou devorado pelo desejo, pelo impulso de ser feliz): digo sim a tudo (cegando-me). em seguida vem um longo túnel: meu primeiro sim é corroído por dúvidas, o valor amoroso é incessantemente ameaçado e depreciação: é o momento da paixão triste, do surgimento do ressentimento e da oblação. desse túnel, entretanto, posso sair; posso "superar"sem liquidar; o que afirmei uma primeira vez, posso novamente afirmar, sem repetir, pois, agora, o que afirmo é a afirmação, não sua contingência: afirmo o primeiro encontro na sua diferença, quero seu retorno, não sua repetição. digo ao outro (antigo ou novo): RECOMECEMOS.
barthes, roland. fragmentos de um discurso amoroso. pág. 18.
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segunda-feira, 25 de agosto de 2014
segunda-feira, 10 de junho de 2013
“eu me abismo, eu sucumbo...”
“bismar-se. onda de aniquilamento que
sobrevém ao sujeito amoroso por desespero ou plenitude.
Werther
1. seja mágoa, seja felicidade, toma-se às
vezes o desejo de me abismar.
a manhã (no campo) está cinzenta e fresca.
sofro (de não sei que incidente). uma ideia de suicídio se apresenta, pura de
todo ressentimento (nenhuma chantagem) contra ninguém); é uma ideia insípida;
não rompe nada (não “quebra” nada, combina com a cor (com o silêncio, com o
abandono) desta manhã.
um outro dia, debaixo de chuva, esperamos o
barco na beira de um lago; de felicidade, desta vez, a mesma onda de
aniquilamento me vem. Assim, às vezes, a desgraça ou a alegria assaltam-se, sem
que sobrevenha nenhum tumulto: nenhum pathos
mais: estou dissolvido, não despedaçado: caio, esvazio-me, derreto. esse
pensamento; levemente tocado, tentado, tateado (como se tateia a água com o pé)
pode voltar. nada tem de solene.
isso é muito exatamente a suavidade.
Tristão, Baudelaire, Rusbrock
2. a onda do abismo pode vir de uma mágoa,
mas também de uma fusão: morremos juntos de nos amar; morte aberta, por
diluição no éter, morte enclausurada da tumba comum.
o abismo é um momento de hipnose. Uma
sugestão age, que me ordena desmaiar sem me matar. daí, talvez, a suavidade do
abismo: não tenho nenhuma responsabilidade nisso, o ato (de morrer) não cabe a
mim: confio-me, transfiro-me (a quem? a deus, à natureza, a tudo, menos ao
outro).
3. quando assim me acontece de abismar-me, é
porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte. a imagem
do outro – à qual eu me colocava, da qual vivia – já ao existe; ora é uma
catástrofe (fútil) que parece afastá-la para sempre, ora é uma felicidade
excessiva que me faz alcançá-la; de qualquer modo, separando ou dissolvido, não
sou recolhido em parte alguma; na frente, nem eu, nem você, nem morte, mais
nada a quem falar.
(estranhamente, é no ato extremo do
imaginário amoroso – aniquilar-se por ter sido expulso da imagem ou nela ter-se
confundido – que se consuma uma queda deste imaginário: no tempo breve de um
vacilar, perco minha estrutura de amante: é um luto factício, sem trabalho:
algo como uma impronúncia.)
4. amante da morte? é dizer demais de uma
metade: half in Love with easeful death (keats: a morte livre do morrer. Tenho
então este fantasma: uma hemorragia suave que não correria de nenhum ponto de
meu corpo, uma consumação quase
imediata, calcada para que eu tenha tempo de dessofrer sem ter ainda
desaparecido. instalo-me fugidiamente num pensamento falseado da morte
(falseado como uma chave empenhada): penso a morte ao lado; penso-a segundo uma lógica impensada, derivo para fora do
binário fatal que liga a morte e a vida opondo-as.
Sartre
5. o abismo não passaria de um aniquilamento
oportuno? não me seria difícil nele ler não um repouso, mas uma emoção. mascaro
meu luto sob uma fuga; diluo-me, desvaneço-me para escapar a esta compacidade,
a esta saturação que faz de mim um sujeito responsável: saio: é o êxtase.
rua do cherch-midi, após uma noite difícil,
X... explicava-me muito bem, com voz precisa, com frases bem formadas,
distantes de todo indizível, que desejava às vezes esvaecer-se; lamentava
jamais poder desaparecer voluntariamente, quando tivesse vontade.
suas palavras diziam que pretendia então
sucumbir à sua fraqueza, não resistir Às mágoas feitas pelo mundo;mas, ao mesmo
tempo, ele substituía esta força alquebrada por uma outra força, uma outra
afirmação: assumo contra tudo e todos uma
recusa de coragem, e portanto uma denegação de moral: é o que dizia a voz de
X...”
trecho extraído do livro “fragmentos de um discurso
amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 3-6.
sábado, 8 de junho de 2013
"quando meu dedo inadvertidamente..."
CONTATOS. A figura se refere a todo discurso interior suscitado por um contato furtivo com o corpo (e mais precisamente a pele) do ser desejado.
Werther
1. Inadvertidamente, o dedo de Werther toda o dedo de Carlota, seus pés, sob a mesa, se encontram. Werther poderia abstrair-se do sentido desses acasos; poderia se concentrar corporalmente nessas débeis zonas de contato e gozar daquela fração de dedo ou de pé inerte de uma maneira fetichista, sem se preocupar com a resposta (como Deus - é esta sua etimologia - Fetiche não responde). Mas precisamente: Werther não é perverso, é amante: cria sentido, sempre em toda parte, de um nada, e é o sentido que o faz estremecer: ele está no braseiro do sentido. Todo contato, para o amante, coloca a questão da resposta: pede-se à pele que responda.
(Pressões de mãos - imenso repertório romanesco -, gesto tênue no interior da palma, joelho que não se afasta, braço estendido, como se nada fosse, ao longo de um encosto de canapé e sobre o qual a cabeça do outro vem pouco a pouco repousar, tal é a região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, não dos sentidos, mas do sentido.)
Proust
2. Charlus segura o queixo do narrador e deixa deslizar os dedos magnetizados até suas orelhas, "como os dedos de um cabeleireiro". Este gesto insignificante, que eu começo, é continuado por uma outra parte de mim; sem que nada, fisicamente, o interrompa, ele bifurca, passa da simples função ao sentido deslumbrante, o da demanda de amor. O sentido (o destino) eletriza minhão mão; vou dilacerar o corpo opaco do outro, obrigá-lo (quer ele responda, quer se retire ou se abandone) a entrar no jogo do sentido: vou fazê-lo falar. No campo amoroso, não há acting-out: nenhuma pulsão, talvez mesmo nenhum prazer, apenas signos, uma atividade desesperada de palavra; instaurar, a cada ocasião furtiva, o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta.
trecho extraído do Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 85-86.
Werther
1. Inadvertidamente, o dedo de Werther toda o dedo de Carlota, seus pés, sob a mesa, se encontram. Werther poderia abstrair-se do sentido desses acasos; poderia se concentrar corporalmente nessas débeis zonas de contato e gozar daquela fração de dedo ou de pé inerte de uma maneira fetichista, sem se preocupar com a resposta (como Deus - é esta sua etimologia - Fetiche não responde). Mas precisamente: Werther não é perverso, é amante: cria sentido, sempre em toda parte, de um nada, e é o sentido que o faz estremecer: ele está no braseiro do sentido. Todo contato, para o amante, coloca a questão da resposta: pede-se à pele que responda.
(Pressões de mãos - imenso repertório romanesco -, gesto tênue no interior da palma, joelho que não se afasta, braço estendido, como se nada fosse, ao longo de um encosto de canapé e sobre o qual a cabeça do outro vem pouco a pouco repousar, tal é a região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, não dos sentidos, mas do sentido.)
Proust
2. Charlus segura o queixo do narrador e deixa deslizar os dedos magnetizados até suas orelhas, "como os dedos de um cabeleireiro". Este gesto insignificante, que eu começo, é continuado por uma outra parte de mim; sem que nada, fisicamente, o interrompa, ele bifurca, passa da simples função ao sentido deslumbrante, o da demanda de amor. O sentido (o destino) eletriza minhão mão; vou dilacerar o corpo opaco do outro, obrigá-lo (quer ele responda, quer se retire ou se abandone) a entrar no jogo do sentido: vou fazê-lo falar. No campo amoroso, não há acting-out: nenhuma pulsão, talvez mesmo nenhum prazer, apenas signos, uma atividade desesperada de palavra; instaurar, a cada ocasião furtiva, o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta.
trecho extraído do Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, 2003, pág. 85-86.
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